Quando o assunto é gestão de frotas e manutenção pesada, muitas empresas ainda concentram a análise apenas no custo direto da oficina. Porém, avaliar somente o valor da mão de obra pode gerar uma leitura incompleta da operação e mascarar impactos financeiros muito maiores.

Na prática, o verdadeiro resultado operacional de uma frota está diretamente ligado à disponibilidade dos veículos, à produtividade da manutenção e à previsibilidade operacional ao longo do tempo.

Em operações de alta demanda, especialmente aquelas que funcionam 24 horas por dia durante os 365 dias do ano, pequenas diferenças de eficiência podem representar milhões de reais em perdas ou ganhos operacionais.

Neste cenário, o debate entre manutenção com estrutura própria e manutenção terceirizada precisa ir além do custo por quilômetro rodado (CPK) apenas da mão de obra. É necessário analisar toda a estrutura envolvida na operação e os impactos indiretos gerados pela eficiência, ou ineficiência,da gestão de manutenção.

Cenário analisado da operação

Para esta análise, foi considerada uma operação com as seguintes características:

  • Frota: 100 veículos
  • Operação: 24 horas por dia | 365 dias por ano
  • Quilometragem média: 830 mil km/mês

Esse tipo de operação exige alto nível de disponibilidade mecânica, controle operacional e capacidade de resposta rápida da manutenção.

Comparativo de CPK: Estrutura própria x estrutura terceirizada

O comparativo abaixo considera exclusivamente o custo de mão de obra por quilômetro rodado (CPK).

Cavalos mecânicos

Os cavalos mecânicos normalmente exigem maior complexidade operacional e manutenção mais frequente devido à alta intensidade de uso nas operações de transporte pesado.

CPK — Apenas Mão de Obra

  • Estrutura própria: R$ 0,26/km
  • Estrutura terceirizada estruturada: R$ 0,50/km

Trucks

Os caminhões do tipo truck possuem características operacionais intermediárias e demandam controle constante para evitar aumento de manutenção corretiva e perda de produtividade.

CPK — Apenas Mão de Obra

  • Estrutura própria: R$ 0,31/km
  • Estrutura terceirizada estruturada: R$ 0,58/km

Tocos

Os veículos toco normalmente atuam em operações urbanas ou regionais e também apresentam impactos relevantes de manutenção quando não há planejamento adequado.

CPK — Apenas Mão de Obra

  • Estrutura própria: R$ 0,23/km
  • Estrutura terceirizada estruturada: R$ 0,43/km

Carretas

Nas carretas, embora o custo direto da mão de obra seja menor em comparação aos veículos motorizados, ainda existem impactos importantes relacionados à disponibilidade operacional e ao desgaste de componentes.

CPK — Apenas Mão de Obra

  • Estrutura própria: R$ 0,09/km
  • Estrutura terceirizada estruturada: R$ 0,15/km

Por que a estrutura terceirizada possui maior custo direto?

Na prática, estruturas terceirizadas normalmente apresentam um custo direto maior de mão de obra. Isso ocorre porque o valor da operação não contempla apenas o serviço mecânico executado.

Uma estrutura terceirizada estruturada absorve diversos fatores operacionais e administrativos necessários para manter a operação funcionando de forma contínua e previsível.

Entre os principais custos envolvidos estão:

  • operação 24h
  • gestão operacional
  • supervisão técnica
  • planejamento
  • indicadores
  • cobertura operacional
  • treinamento
  • governança
  • estrutura administrativa
  • impostos
  • encargos trabalhistas
  • aluguel de estrutura
  • ferramentais
  • veículos de apoio
  • sistemas de gestão
  • risco operacional

Ou seja, o custo não está apenas na mão de obra aplicada, mas em toda a capacidade operacional necessária para garantir a continuidade da frota e redução de paradas.

O problema de analisar apenas o custo direto da oficina

Um dos principais erros na gestão de manutenção é avaliar exclusivamente o menor custo imediato da mão de obra sem considerar os impactos indiretos gerados pela operação.

Muitas empresas deixam de medir perdas financeiras importantes causadas por problemas operacionais que surgem ao longo do tempo.

Entre os principais impactos estão:

  • indisponibilidade
  • excesso de manutenção corretiva
  • baixa produtividade
  • falhas de planejamento
  • consumo elevado de diesel
  • desgaste prematuro de pneus
  • improdutividade operacional
  • estoque desorganizado

Na prática, esses fatores podem gerar custos muito superiores à diferença inicial observada no CPK da mão de obra.

Os impactos financeiros da ineficiência operacional

Quando os indicadores operacionais são conectados às análises financeiras da operação, os impactos podem atingir valores extremamente relevantes dentro da gestão da frota.

Impacto no Consumo de Diesel

O aumento do consumo de combustível causado por falhas operacionais e manutenção ineficiente pode gerar perdas de:

  • até R$ 1,24 milhão por ano

Impacto no Desgaste de Pneus

A falta de controle operacional e manutenção adequada também afeta diretamente a vida útil dos pneus.

  • aproximadamente R$ 586 mil por ano

Impacto na Disponibilidade Operacional

Veículos parados representam perda direta de produtividade e faturamento.

  • entre R$ 420 mil e R$ 550 mil por ano

Impacto no Estoque

A falta de organização e controle pode gerar capital imobilizado sem produtividade.

  • entre R$ 500 mil e R$ 1,5 milhão imobilizados

Impacto da Ineficiência Operacional

Somando falhas de gestão, baixa produtividade e perdas operacionais:

  • acima de R$ 1,4 milhão por ano

O que realmente deve ser avaliado na gestão da manutenção?

O principal ponto desta análise é que o menor custo de mão de obra não significa, necessariamente, o menor custo total da operação.

A discussão correta não deve ser:

“Quem possui a mão de obra mais barata?”

A análise mais estratégica é:

“Qual estrutura entrega maior disponibilidade, produtividade e previsibilidade operacional por km rodado?”

Hoje, a manutenção deixou de ser apenas um centro de custo operacional.

Ela passou a representar capacidade produtiva, disponibilidade da frota e geração de resultado financeiro dentro da operação logística.

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    Wagner Silva

    Wagner Silva

    Wagner Silva é Consultor Executivo em Gestão e Manutenção de Frotas, atuando na liderança de projetos voltados à redução de custos, aumento de disponibilidade e melhoria da performance operacional em operações de grande porte. À frente da Infinity Action, desenvolve soluções práticas e orientadas a resultado, conectando manutenção, operação e impacto financeiro. Reconhecido por sua visão executiva, traduz desafios operacionais em decisões estratégicas, contribuindo diretamente para ganho de eficiência e competitividade.

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