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Durante muitos anos, a manutenção foi tratada apenas como um centro de custo, atuando de forma reativa — ou seja, entrando em ação somente após a ocorrência de falhas, com foco em corrigir problemas, “apagar incêndios” e devolver o equipamento à operação no menor tempo possível.

Com o aumento da complexidade dos ativos e a crescente pressão por eficiência operacional, esse modelo mostrou-se insustentável no longo prazo. É nesse cenário que indicadores como o MKBF (mean kilometers between failures) ganham protagonismo, especialmente quando analisados sob a ótica do ciclo de vida do equipamento.

Por que analisar o MKBF de forma isolada não é suficiente

O MKBF indica a média de quilômetros rodados entre falhas e é um excelente termômetro da confiabilidade dos ativos. O problema surge quando esse indicador é analisado de forma linear, sem considerar a fase do ciclo de vida em que o equipamento se encontra.

Na prática, todo ativo passa por etapas bem definidas:

  • entrada em operação
  • fase de maturidade
  • fase de desgaste
  • fim de vida

Esperar o mesmo comportamento de falhas em todas essas fases é um erro comum — e caro.

A importância da visão de ciclo de vida na análise do MKBF

Quando o MKBF é analisado por faixa de quilometragem, seu comportamento se torna muito mais claro e didático. À medida que os veículos avançam nas faixas de odômetro, observa-se uma queda progressiva do MKBF, evidenciando a redução da confiabilidade conforme o ativo envelhece.

Nas faixas iniciais, o indicador tende a ser mais elevado, reflexo de componentes novos, menor desgaste acumulado e maior previsibilidade operacional. Com o avanço da quilometragem, o gráfico revela uma mudança consistente de patamar, com redução dos quilômetros rodados entre falhas.

Gráfico 1 – MKBF ao longo do ciclo de vida

Esse comportamento não é aleatório. Ele reflete o desgaste natural dos sistemas, a fadiga dos componentes e a maior recorrência de falhas. Mais do que ilustrativo, esse tipo de análise cumpre um papel estratégico: comprova que avaliar o MKBF sem considerar a faixa de quilometragem pode gerar interpretações distorcidas e decisões equivocadas em manutenção, orçamento e renovação de frota.

Quando observado sob a ótica do ciclo de vida, o MKBF deixa de ser apenas uma média e passa a ser um indicador de envelhecimento do ativo.

Outras leituras possíveis do MKBF ao longo do ciclo de vida

Além da análise por quilometragem, o MKBF permite leituras complementares quando associado aos sistemas do veículo. No gráfico apresentado, por exemplo, é possível comparar o comportamento do indicador ao longo dos anos de uso, separando falhas de chassi e carroceria.

Essa abordagem evidencia que, embora ambos os sistemas sofram impacto com o envelhecimento, o ritmo de degradação não é o mesmo. Sistemas de chassi, em muitos casos, perdem confiabilidade de forma mais acelerada, enquanto a carroceria pode apresentar padrões distintos de falha, influenciados por fatores como:

  • tipo de operação
  • condições das vias
  • nível de conservação
  • histórico de intervenções
Gráfico 2 – comparação de MKBF entre falhas de chassi e carroceria

Comparação do MKBF entre marcas de chassi ao longo do ciclo de vida

Outra aplicação estratégica do MKBF está na comparação entre marcas de chassi. Quando o indicador é analisado por faixa de quilometragem, torna-se possível identificar diferenças consistentes de confiabilidade entre fabricantes, especialmente nas fases mais avançadas do ciclo de vida.

Os dados mostram que algumas marcas apresentam bom desempenho inicial, mas o diferencial real está na estabilidade do MKBF ao longo do tempo. Em certos casos, a degradação ocorre de forma mais acelerada conforme o desgaste se intensifica; em outros, o indicador se mantém mais estável por mais tempo.

Gráfico 3 – comparação de MKBF entre marcas de chassi

Nesse contexto, o MKBF deixa de ser apenas um indicador de manutenção e passa a atuar como uma ferramenta estratégica de apoio à decisão, conectando confiabilidade, custo ao longo da vida útil e investimento inicial.

Parametrizar dá trabalho, mas gera retorno

Construir um MKBF baseado no ciclo de vida exige método, disciplina e, principalmente, qualidade de dados. O esforço inicial é significativo e envolve:

  • revisão de cadastros
  • padronização de falhas
  • organização do histórico e controle de manutenção
  • correlação entre quilometragem e eventos

Quando bem estruturada, essa abordagem se mostra extremamente poderosa, especialmente para:

  • componentes com clara tendência de degradação
  • sistemas críticos para a operação
  • frotas com alto impacto de indisponibilidade

O maior ganho não está apenas no indicador, mas na capacidade de antecipação.

Do indicador à tomada de decisão estratégica

Um MKBF analisado ao longo do ciclo de vida permite:

  • definir metas realistas, compatíveis com a idade do ativo
  • ajustar planos de manutenção de forma mais assertiva
  • identificar o ponto em que o custo corretivo supera o benefício da manutenção
  • apoiar decisões estratégicas como reforma, substituição ou desativação

Nesse momento, o indicador deixa de ser apenas operacional e passa a sustentar decisões financeiras e estratégicas.

Confiabilidade não acontece por acaso

A confiabilidade é construída. Falhas não surgem de forma aleatória — elas seguem padrões, ciclos e comportamentos previsíveis quando analisados corretamente.

Integrar o MKBF à lógica do ciclo de vida do equipamento não significa apenas medir falhas, mas compreender o momento do ativo dentro da operação e agir de forma inteligente sobre isso.

No fim das contas, manutenção eficiente não é a que conserta mais rápido, mas a que faz o equipamento falhar menos, no momento certo e pelo motivo certo.

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      Marcos
      Marcos Matos

      Marcos Luis Matos, gerente de manutenção de frotas com mais de 30 anos de experiência no setor de transporte. Com uma sólida trajetória em ambientes corporativos, construiu sua carreira com forte atuação em gestão de pessoas, desenvolvimento de lideranças, controle de indicadores de desempenho, administração operacional e melhoria de processos. Responsável pela manutenção de uma frota com mais de 800 veículos, é Técnico em Manutenção e graduando em Engenharia de Produção. Sua jornada profissional é marcada pela busca constante por inovação, eficiência e resultados sustentáveis na gestão de frotas.

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