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18 de junho
15h
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Antes de compartilhar as conclusões deste estudo da telemetria aplicada à segurança, considero importante destacar uma limitação metodológica relevante.

Minha análise não teve como objetivo verificar se houve uma freada brusca exatamente no instante em que ocorreu cada queda de passageiro. O que avaliei foi o comportamento operacional dos motoristas por meio dos indicadores de freada brusca registrados na mesma semana em que o sinistro aconteceu.

Isso significa que os resultados apresentados demonstram uma associação estatística entre o perfil de condução e as ocorrências de queda de passageiros. Em outras palavras, os dados indicam que motoristas com maior frequência de freadas bruscas tendem a estar mais envolvidos em ocorrências de queda. No entanto, não é possível afirmar que os eventos de freada identificados ocorreram exatamente no momento do sinistro. 

Faço esse esclarecimento porque acredito que análises baseadas em dados precisam ser interpretadas com responsabilidade. O objetivo deste estudo não é apontar causalidades absolutas, mas contribuir para uma compreensão mais aprofundada dos fatores que podem influenciar a segurança dos passageiros no transporte coletivo.

Quando a telemetria encontra a segurança dos passageiros

Durante muitos anos, ouvi uma afirmação ser repetida dentro do transporte coletivo:

“Queda de passageiro acontece porque o motorista freou bruscamente.”

Mas será que essa relação é realmente tão simples?

Como profissional da área de treinamento e desenvolvimento operacional, sempre acreditei que decisões de segurança precisam ser sustentadas por dados e não apenas por percepções. Foi justamente essa inquietação que me levou a realizar um estudo para avaliar a relação entre eventos de freada brusca e ocorrências de queda de passageiros no transporte urbano.

O objetivo era simples:

Entender se os motoristas que apresentam maior frequência de freadas bruscas também possuem maior envolvimento em ocorrências de queda de passageiros. E os resultados trouxeram descobertas extremamente relevantes.

O estudo da telemetria aplicada à segurança

O estudo foi desenvolvido a partir de registros de sinistros e dados de telemetria de uma das maiores operações de transporte urbano da região, composta por cerca de 800 veículos. A amplitude da operação proporcionou uma base consistente para investigar a associação entre o comportamento de condução dos motoristas e as ocorrências de queda de passageiros.

Foram avaliadas:

  • 135 ocorrências de queda de passageiros;
  • 133 motoristas envolvidos;
  • Dados das semanas 02 a 23 de 2026;
  • Indicadores padronizados por 1.000 km rodados.

Além das quedas registradas durante embarque, deslocamento interno e desembarque, foram analisados os eventos de freada brusca registrados na mesma semana de cada ocorrência.

O primeiro grande achado: 80% das quedas estavam associadas a motoristas com registro de freada brusca

Ao cruzar as informações, encontrei um dado que chamou atenção imediatamente.

Dos 135 casos analisados:

  • 108 ocorreram com motoristas que apresentaram registro de freada brusca na mesma semana;
  • Apenas 27 envolveram motoristas sem registro de freada brusca.

Em outras palavras:

80% das quedas analisadas estavam associadas a operadores que apresentaram eventos de freada brusca. Esse resultado reforça a existência de uma relação importante entre o perfil de condução e a segurança dos passageiros. Mas a investigação não parou por aí.

Critério Técnico Utilizado

ItemDescrição
Definição de Freada BruscaDesaceleração superior a 7 km/h/s, ou seja, quando o veículo reduz sua velocidade em mais de 7 km/h em apenas 1 segundo.
Objetivo da PadronizaçãoEqualizar os indicadores operacionais independentemente da quilometragem percorrida por cada motorista.
Unidade de ComparaçãoIndicadores convertidos para 1.000 km rodados.
Fórmula – Freada Brusca(Quantidade de eventos de freada brusca ÷ km rodado) × 1.000
Fórmula – Queda de Passageiro(Quantidade de quedas de passageiro ÷ km rodado) × 1.000

O grupo crítico apresentou o maior risco

Para aprofundar a análise, os motoristas foram classificados em quatro níveis de exposição de acordo com a frequência de freadas bruscas:

  • Baixa Exposição
  • Moderada Exposição
  • Alta Exposição
  • Exposição Crítica

Faixas de Classificação

ClassificaçãoFreada brusca/km x 1000 km
Baixa Exposição≤ 70,99
Moderada Exposição71 a 130,99
Alta Exposição131 a 200,99
Exposição Crítica≥ 200,99

Perfil dos operadores envolvidos em queda em relação a classificação da freada.

Classificação% MotoristasFreadas/km x1000 kmQuedas/km x1000 km
Exposição Crítica36,79%1.0899,2356
Alta Exposição7,55%1601,9922
Moderada Exposição14,15%971,9196
Baixa Exposição41,51%311,7080

Os motoristas classificados como Exposição Crítica apresentaram simultaneamente:

  • O maior índice de freada brusca;
  • A maior taxa de queda de passageiros.

Quando comparados aos operadores de Baixa Exposição, o índice de quedas observado no grupo crítico foi aproximadamente cinco vezes maior. Na prática, isso demonstra que quanto mais frequentes são os eventos de freada brusca, maior tende a ser a exposição ao risco de queda de passageiros.

Mas existe uma surpresa importante

Se a freada brusca fosse a única causa das quedas, a análise estaria encerrada. Mas os dados mostraram algo ainda mais interessante. Ao avaliar os motoristas que NÃO registraram queda de passageiro, observei que uma parcela significativa deles também estava classificada na faixa de Exposição Crítica.

Perfil dos operadores sem ocorrência de queda

Classificação% MotoristasFreadas/km x1000 km
Exposição Crítica37,47%726
Alta Exposição7,82%161
Moderada Exposição13,61%97
Baixa Exposição41,10%31

Existem operadores com elevada frequência de freadas bruscas que não registraram quedas. Esse resultado revela uma conclusão fundamental: A freada brusca aumenta o risco, mas não explica sozinha todas as ocorrências.

Principais evidências encontradas

Os resultados permitem destacar quatro evidências principais:

AchadoEvidência
Associação entre perfil de freada brusca e queda de passageiro80% das quedas analisadas envolveram motoristas que apresentaram registros de freada brusca na mesma semana da ocorrência.
Maior risco concentrado no grupo CríticoO grupo Exposição Crítica apresentou simultaneamente os maiores indicadores de freada e de queda de passageiros.
Tendência de redução do riscoA diminuição da frequência de freadas foi acompanhada pela redução da taxa de quedas ao longo das classificações operacionais.
Fenômeno multifatorialA existência de operadores com alta frequência de freadas e sem quedas demonstra que a freada brusca não explica isoladamente todas as ocorrências.

Diagnóstico técnico

Os resultados sugerem que motoristas com maior frequência de eventos de freada brusca tendem a apresentar maior envolvimento em ocorrências de queda de passageiros.

Entretanto, a análise demonstra que esse fator não explica integralmente o fenômeno observado. Os dados indicam que a queda de passageiro possui característica multifatorial, sendo influenciada por fatores relacionados ao comportamento operacional, às condições da viagem e às características dos próprios passageiros.

O que realmente está acontecendo?

Os dados apontam que a queda de passageiro é um fenômeno multifatorial. 

Embora a condução do motorista apresente influência relevante, os resultados demonstram que a ocorrência de quedas não pode ser explicada exclusivamente pelos eventos de freada brusca. Diversos outros fatores podem contribuir para o desfecho observado, entre eles:

  • Idade do passageiro;
  • Mobilidade reduzida;
  • Utilização do corrimão;
  • Passageiro em pé ou sentado;
  • Uso de celular durante o deslocamento interno;
  • Lotação do veículo;
  • Fluxo de passageiros;
  • Condições da via;
  • Motivo da frenagem;
  • Condições climáticas;
  • Horário da ocorrência.

Talvez a principal reflexão deste estudo seja que a busca pela redução das quedas de passageiros exige uma abordagem mais ampla do que simplesmente monitorar indicadores de condução ou atribuir a responsabilidade exclusivamente ao motorista.

Compreender esse tipo de ocorrência demanda a construção de um perfil mais completo do sinistro, considerando simultaneamente fatores humanos, operacionais, comportamentais e ambientais. Somente por meio dessa visão integrada será possível identificar com maior precisão as circunstâncias que aumentam a exposição ao risco.

Essa abordagem abre espaço para que empresas, órgãos gestores do transporte e entidades responsáveis pela mobilidade urbana desenvolvam estratégias preventivas mais eficazes. Além do aperfeiçoamento contínuo da condução dos operadores, os resultados também podem subsidiar campanhas de conscientização voltadas aos passageiros, abordando temas como o uso do corrimão, a permanência em local seguro durante o deslocamento, a atenção ao embarque e desembarque e os riscos associados ao uso do celular durante a movimentação no interior do veículo.

Mais do que identificar culpados, o verdadeiro desafio é compreender o conjunto de fatores que antecedem a queda e atuar preventivamente sobre eles. É nesse ponto que os dados deixam de ser apenas registros de ocorrências e passam a se transformar em ferramentas para a construção de um transporte coletivo mais seguro para todos.

O papel da telemetria na prevenção

Uma das principais contribuições deste estudo é reforçar que a telemetria não deve ser utilizada apenas para registrar comportamentos, mas principalmente para identificar riscos antes que eles se transformem em sinistros.

Quando observamos um motorista com elevada frequência de freadas bruscas, não estamos analisando apenas um indicador operacional. Estamos identificando um possível aumento da exposição ao risco dentro da operação. Esse tipo de informação permite direcionar ações preventivas, treinamentos específicos e acompanhamento operacional muito antes que uma ocorrência aconteça.

Mais importante ainda, os resultados demonstram que a telemetria pode atuar como ponto de partida para investigações mais amplas, auxiliando as empresas a compreenderem não apenas o comportamento do motorista, mas também o conjunto de fatores que influenciam a segurança dos passageiros. Dessa forma, os dados deixam de ser apenas registros operacionais e passam a apoiar decisões mais estratégicas voltadas à prevenção de acidentes e à construção de um transporte coletivo mais seguro.

A moral da história

Os dados mostraram que existe uma forte associação entre freadas bruscas e quedas de passageiros. Mas também mostraram algo ainda mais importante:

Segurança não é resultado de um único fator.

No transporte, os melhores resultados surgem quando combinamos tecnologia, análise de dados, treinamento operacional e compreensão do comportamento humano.

  • A telemetria nos ajuda a enxergar onde está o risco.
  • A gestão transforma essa informação em ação.

E é justamente nessa combinação que construímos operações mais seguras para motoristas, passageiros e empresas.

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    Marcos Matos

    Marcos Luis Matos, gerente de manutenção de frotas com mais de 30 anos de experiência no setor de transporte. Com uma sólida trajetória em ambientes corporativos, construiu sua carreira com forte atuação em gestão de pessoas, desenvolvimento de lideranças, controle de indicadores de desempenho, administração operacional e melhoria de processos. Responsável pela manutenção de uma frota com mais de 800 veículos, é Técnico em Manutenção e graduando em Engenharia de Produção. Sua jornada profissional é marcada pela busca constante por inovação, eficiência e resultados sustentáveis na gestão de frotas.

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